Cálice
Pai,
No início tudo era paz, perfeito, etéreo. Só havia felicidade. Apenas o amor era conhecido. Entretanto, Eva, em sua ingenuidade, pecou, e Adão, por sua omissão, falhou. O paraíso ruiu, e o solo brotou. Com isso, nasceu Caim, depois Abel. A inveja, a maldade e a crueldade precederam a justiça, a bondade e a piedade. Ainda assim, o bem-amado era digno, e sua semeadura despertou a ira. Por isso, o injusto decidiu assassinar aquele que o despertava para a evolução; o Baobá foi rompido.
Senhor,
Seus filhos tanto sofreram, e sua misericórdia os abençoou: a primeira mulher e o primeiro homem receberam Sete, o sinal da esperança. No entanto, a Serpente, inescrupulosa, continuou viva e se aproximou da primeira família mortal. Os membros, novamente, acolheram a ilusão com boa intenção. O veneno, então, foi plantado, não mais no solo, mas na alimentação. Agora, sem o intermédio do homem, na ausência de Caim — que fora amaldiçoado e afastado —, Sete sofreu o golpe: ingeriu aquilo que ao seu corpo destruiu. Também Abel, que agora era outro, recebeu o golpe de traição. Estela, do povo da Manhã, conquistou a vitória no mal, e os filhos dos filhos dos filhos de Adão e de Eva sofreram, invisíveis, silenciados.
Senhor,
Como é difícil acordar calado,
se na calada da noite eu me dano.
Quero lançar um grito desumano,
que é uma maneira de ser escutado.
Pai, afasta de mim esse cálice
de vinho tinto de sangue.
Ouve a voz dos ancestrais...
Eles dizem:
Perdoem a cara amarrada,
perdoem a falta de abraço,
perdoem a falta de espaço,
os dias eram assim...
Quando brotarem as flores,
quando crescerem as matas,
quando colherem os frutos,
digam o gosto para mim.
Pai, escuta:
Caim e a Serpente são os mesmos.
Estela terá que aguardar o nascimento de Lameque?
Não faça isso, te suplico. Os tempos são outros.
Há ferros pretos e brancos;
a justiça também deve estar entre os homens
e ser feita de acordo com a lei divina.
Pai,
Afasta de mim este cálice.
Perdoa a ingenuidade, a inocência.
A Estrela da Manhã não soube amar —
e, ao ser amada, instituiu a dor.
A dor silenciada.
Há seis meses o vinho tinto de sangue
jorrou em dois corpos irmãos.
Perdoe, Senhor, a falta de abrigo.
Perdoe a falta de ar.
Pai,
Afasta de mim este cálice
de vinho tinto de sangue.
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