Por que os ancestrais não consanguíneos são tão ou mais importantes que os avoengos biológicos?

Entramos em um ponto que sempre defendi e continuo defendendo rigorosamente: é verdade que nenhum de nós existiria se um dos espermatozoides que nos constituíram não houvesse fecundado algum dos óvulos que também nos geraram. Entretanto, também é igualmente verídico que, sem a nutrição fornecida aos nossos antepassados durante a infância, eles não teriam chegado à vida adulta e, assim, dado prosseguimento à linhagem.

É inquestionável, ainda, que, sem a criação que moldou cada emocionalidade e personalidade, nossos avós também não teriam se atraído e casado, o que resultaria igualmente na nossa não existência. Não há como negar que os progenitores — aqueles que nos deram a vida biológica — são nossas raízes, uma vez que, sem o sangue que deles provém, nossos corpos não teriam se formado. Contudo, é questionável afirmar que, sem o cuidado médico, alimentício, educacional e formativo, nossas existências teriam sido preservadas.

O que atrai duas pessoas não é apenas a aparência física, mas aquilo que se é internamente, ou seja, aquilo que foi constituído por aquele que ficou responsável pela criação social. Se pelos pais biológicos nós existimos enquanto seres vivos, é pelos pais afetivos (e aqui há uma grande camada de possibilidades) que nós existimos enquanto seres sociais. A vida biológica e a social coexistem, e foi nessa coexistência que se construiu a história da nossa família. Bastaria que um ancestral não estivesse no lugar correto, no momento correto e nas condições corretas para que o ciclo do destino se alterasse, e, assim, outros que não vieram estivessem ocupando nossos lugares (que, obviamente, não seriam nossos).

É preciso compreender que o advento da genealogia genética e dos testes que analisam trechos do DNA não substituem a genealogia registral ou afetiva, mas sim a complementam. Ainda mais na contemporaneidade, em que há um reconhecimento consolidado da multiparentalidade: não diremos que pais adotivos não são pais, que mães não gestantes não são mães, que avósdrastos não são avós e assim por diante — então, por que ainda se insiste em empobrecer os estudos das linhagens? Pois é exatamente isso que a invisibilização da ancestralidade por afinidade faz: empobrece nossa história e a daqueles que nos antecederam.

Mas como reconhecer a multiparentalidade enquanto as próprias plataformas de heredogramas nos obrigam a escolher apenas um casal de pai (homem) e mãe (mulher) para figurar em nossa estirpe? Claro, há a possibilidade de acrescentar quantas filiações forem desejáveis; entretanto, uma sempre substituirá a outra ou prejudicará alguma posição — quando, por exemplo, para reconhecer uma criança criada por um casal homoafetivo, é preciso colocar um dos pais no local reservado à mãe (ou uma das mães no lugar reservado ao pai).

Na atualidade, uma filiação não substitui a outra: elas coexistem, somam-se, formam uma única realidade — não existem duas filiações distintas. Precisamos evoluir enquanto pesquisadores e cobrar dos sites e aplicativos o reconhecimento da modernidade. E ainda um adendo: “evoluir” no sentido de equiparar-se aos dias em que vivemos, uma vez que as legislações já nos avançaram, o que nos torna atrasados (não vanguardistas).

Multiparentalidade, ancestralidade afetiva e suas inúmeras possibilidades são as chaves para uma genealogia mais rica e adaptada à compreensão do que é família na contemporaneidade.

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