Canto do romano Olímpio

Oh, santa profana! Oh, divindade humana!
Vós, arcaica, excelsa tirana, larga-te de nós.

A Mãe-Terra agora é Filha-Ilha.
Por que, então, insistes em viver?

Não, não, não é mais digno o querer.
Sentir? Não! Nunca! Controle-se,
controle-nos,
Citereia.

Herética, compreenda:
que espuma há no mar?

Vênus, há lixo! Apenas lixo!
No mar, sim, sim.
Na imensidão física,
espiritual, emocional,
vívida.

Vulcano domina as redes,
os afetos, as dores.

Marte governa os punhais,
os automóveis, a agricultura,
só não mais a abundância.

Oh, excelsa profana!
Os trovões agora são pesadelos,
não mais milagres.

Juno venceu a guerra!
Filhos, apenas se forem os seus;
amor, somente se houver sangue;
rancor, sempre que fores o algoz.

Baco agora é rei, Citereia.
Harmonia morreu.
Mas há inovação:
o roxo agora é dourado,
as uvas agora são trigos.

Estamos todos em uma tribo.

Sem excessos,
sem instintos,
sem nada.

Ou com tudo,
sem nada dizer,
para estar sempre a esconder.

Corre, corre, Vênus.
Te chamarão Afrodite.
Diana agora é princesa,
fútil, inconsequente, incoerente,
mas realeza.

E está morta. Para sempre.
Pois até a discordância
é motivo para a alvorada
da arrogância.

Toma cuidado, espuma do mar:
tornaste-te lixo. Eternamente.
Contenta-te — ao menos,
agora estás por todos os cantos,
contaminando os mimos.

Ecoa-se ao Olimpo:
“Morram, deuses vizinhos!
Queremos ser teus amigos.”

Enéias, somos nós:
excelsos, maravilhosos,
falhos e inimigos.

Ecoar-se-á sempre ao Paraíso.

Comentários