Televisão
Há uns meses, um eletrodoméstico quebrou, e fiquei um tempo sem ele. Ao comentar com uma amiga, incrédula, ela disse que não aceitava que eu deixasse tudo faltar, mas nunca minha televisão, e eu ri, dizendo que havia prioridades. A verdade é que a TV e eu parecemos nos fundir, ser um só — talvez não haja Felipe sem sua televisão, apesar de haver televisão sem Felipe.
Cresci em frente ao televisor, atento, feliz, com tanta intensidade que ele perpassa todos os meus vínculos: das minhas amizades aos meus familiares. Quando me recordo de um finado amigo, a lembrança mais vívida que acesso é especialmente a dele lembrar que eu assistia Cúmplices de um Resgate e fazer seus pais trocarem sempre suas programações diárias para que eu não perdesse a novela. Quando lembro da casa de minha avó, na Boa Vista, a primeira coisa que recordo — depois do xampu de chocolate, claro — é da sua TV a cabo, que me fazia deitar na sala e passar o dia assistindo: à tarde, Cartoon Network; à noite, He-Man e Dragon Ball Z.
Quando leio ou ouço alguém dizer que "hoje, quase ninguém mais assiste à TV aberta", me assusto — verdadeiramente. Vez ou outra, me pego correndo na saída da faculdade para não perder a novela das nove, como fazia ao sair da escola para não perder Malhação. Meus dias — quase todos — são e foram preenchidos por telenovelas, telejornais, programas e afins. Ainda bebê, com poucos meses, eu assistia, fissurado, Alma Gêmea. Acompanhei quase todas as novelas que foram exibidas (ou reprisadas) desde então: O Profeta, A Viagem, Laços de Família, Ti Ti Ti, Sete Vidas, Além do Tempo, Avenida Brasil e muitas, muitas outras.
Minhas horas não são as mesmas sem o ruído das vozes televisivas. É como se fossem parte de mim. Penso que tenho tanto orgulho de ser brasileiro por ter crescido com narrativas, textos, rostos e cenários nacionais. Me aterrorizo quando vejo crianças crescendo apenas com produtos estadunidenses ou asiáticos, quase sem acesso ao que lhes pertence — e, assim, não creio que crescerão sentindo-se puramente brasileiras, e sim talvez como vira-latas, ou como criações inferiores dos neocolonos.
Enfim, amo tanto a TV — sem dúvidas, é um objeto que recorda os demais de mim. Quando me mudei para quatro horas de casa, no ano passado, minha mãe me disse: “Alice não quer mais assistir Família é Tudo, porque falou que era o que assistia com ‘meu irmão’, e que não tem mais graça acompanhar”. É que, como afirmei, a televisão perpassa todos os meus relacionamentos. Tudo se mescla ou se funde...
Quando pequeno, não fui muito levado ao cinema; eram raras as vezes que íamos. E os filmes, eu assistia na TV, com DVD: era tão especial ir comprar, olhar a capa, ler a sinopse e escolher um dentre tantos — ou ainda mais dois, nos melhores dias. Meus lançamentos eram transmitidos na tela da minha televisão de cubo — que, inclusive, é algo de que ainda sinto falta. Uma de minhas primeiras memórias é exatamente com um aparelho assim: ao lado de minha mãe, nós dois em uma kombi, carregando uma TV pequena no colo, para levar para casa, como um presente de minha bisavó Zezinha.
É um aparelho que me tem — não por vício, que digo, sem cambalear, não ter —, mas por uma paixão e uma história que começou nos meus primeiros momentos de vida. É como uma janela: alva, linda, magnífica, que clareia a minha casa, palco da minha narrativa. Ou como a trilha sonora da minha Grande Família — que, aliás, é um dos meus fascínios, rs.
Com tapas e beijos, amo a televisão — talvez, para sempre.
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