À mamãe

Minha mãe tornou-se "mamãe" ainda menina, no aniversário de 18 anos, dez minutos depois do próprio horário em que nasceu. Engravidou aos 17 e, ainda adolescente, enfrentou o estigma da maternidade precoce em 2005, no meio da melhor década do nosso milênio, quando tudo era colorido e semi-analógico. Perdeu seu nome para ganhar um título familiar quando poderia estar construindo uma trajetória que não fosse a da anulação pelo outro. Entretanto, tudo isso não é uma crítica, mas uma reverência à sua coragem.

Ainda menina, tinha que ser mulher antes mesmo de aprender a ser. Antes mesmo de encarar a vida adulta por si própria.
Mas deu conta, superou, não desistiu e guerreou — contra si mesma, contra sua inocência.

Fico pensando em mim no seu lugar: quando vemos de fora, acreditamos que não é nada demais, que seríamos perfeitos. Mas somente quem vive sabe das suas dores e abdicações, ainda mais em uma sociedade que desumaniza as mulheres e as adultiza antes da hora. Ser adulto é uma transição não só biológica, mas social, que requer uma construção ao longo dos anos, e não apenas um aniversário que decreta a maioridade no penúltimo ano da adolescência.

Talvez eu nunca tenha dito à minha mãe, mas eu a admiro, em suas qualidades e falhas. Nós crescemos juntos: eu, na descoberta da minha infância; e minha mãe, na descoberta de si própria. Muitas vezes, sou duro com ela, porque ainda a vejo com seus 20 anos, grávida de minha irmã. Mas, apesar dos pesares, isso nos aproxima, pois consigo vê-la como sujeita, não apenas como mãe, uma entidade sagrada.
Para mim, ela é humana, e apenas humana (e eu gosto disso).

Minha mãe, que me contou histórias para dormir, que me incentivou na genealogia, que lê meus textos quando quase ninguém lê, que ouve minhas reclamações quando não quero ouvir as dela, que me escreve quando ninguém lembra de mim, que me procura em todos os seus dias, que fala de mim para todos que entram em seu caminho, que me enxerga melhor do que sou e que acredita mais em mim do que eu próprio.

Minha mãe, que abdicou de sua juventude pela minha, que perdeu suas ilusões enquanto necessitava preencher as minhas, que enfrentou guerras pelo meu bem-estar e que move céus e terras quando a vida ameaça me fazer precisar de algo.

Minha mãe, que, como seu nome — Amanda — já diz, em sua etimologia, é digna de ser amada. A minha mãe que me batizou de Felipe, que me proporcionou as lembranças queridas que ainda semeia em minha vida e a minha mãe que, desde sempre, foi minha.

Eu a amo infinitamente.
Sou feliz por tê-la, verdadeiramente.

Minha mãe,
Desejo-lhe um lindo feliz dia.
Melhor: lindos dias, pois amanhã o dia também é teu — é o teu aniversário.

Teu menininho.

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