Dias melhores virão
Não há um dia em que eu passe sem lembrar de vocês ou ouvir suas vozes na ponta do meu ouvido. Não há uma noite em que eu durma sem sonhar tendo vocês. Não haverá um momento em que eu não sentirei mais suas faltas. Há muitos que minimizam o que aconteceu, tratando-o como um luto comum, como uma saudade que precisa ser curada. Mas a verdade é que somente quem perdeu alguém tão próximo para uma planta daninha, que, sem avisar ou dar sinais, se instaurou e, no momento mais inesperado, destruiu toda a semeadura, entenderá. Somente quem perdeu duas pessoas dignas, que nunca semearam nenhum mal, para a atrocidade de uma serpente humana, compreenderá.
Não é apenas uma despedida, mas um processo de aceitação de um roubo de duas vidas que também eram muito minhas. Um furto programado de uma parte de mim e de quem sou ou fui. É um rompimento abrupto das portas que eu buscava quando as coisas iam mal, dos ouvidos que me escutavam atentos quando minha voz necessitava eclodir e de dois braços que estavam sempre abertos para me acolher. Quando alguém não tem filhos, seus sobrinhos se tornam suas crianças, e esse foi o caso de titio e titia. Sempre me senti como o filho amado que nunca tiveram e, dia após dia, me sinto como se houvesse perdido uns pais, e a resiliência encontrou um desafio tão intenso que, por diversos momentos, ameaça falhar. Logo eu, sempre tão resiliente.
Mas a verdade é que não é fácil nem explicável, e isso me faz entender que estou agindo da maneira mais digna que essa prova me permite agir, até porque o ódio não encontrou abrigo em meu peito, que rejeitou o rancor de alguém que traiu a todos nós para acolher a dor de apenas sentir o sofrimento. E hoje lembrei de minha tia aludir ao significado do meu primeiro nome (anjo, mensageiro) ao me dar os créditos pela união da nossa família, dizendo-me, à sua forma tímida, que eu era capaz do que muitos não eram. E percebi que aquela glória não era minha, mas dela e de seu irmão, meu tio, que, por amor, escolheram dedicar-se ao seu sangue e viver por sua família, em vez de escolher os caminhos tortos de alguns.
Em suas vidas, nossa família se uniu porque eles assim fizeram e permitiram, por se devotarem aos filhos e netos de seus irmãos, buscando amar até aqueles que lhes eram ausentes e ingratos. E suaviza meu sofrimento saber que fui o que mais os amou, não pelo meu ego, mas pela consciência do que agora foi tornado passado. O silêncio do meu telefone e as trancas da casa de vovó Zezinha me perturbam, mas, como meu avô Alexandre sempre me dizia: dias melhores sempre virão, e, quando Deus permitir, encontrarei paz e poderei avistá-los, em meu íntimo, na alegria da colheita da plantação do amor filial e fraternal que compartilhamos e nunca deixaremos de compartilhar.
De certo modo, ainda os tenho em mim e guardo a fé de que um dia saberei lidar com a ausência que nos foi imposta. Acima de tudo, peço a Deus que os abençoe, como eles constantemente me abençoaram!
Comentários
Postar um comentário