Ausência imposta — presença roubada.

Quando alguém parte naturalmente, o ciclo da vida se renova, se faz acontecer. Os parentes que ficam observam o período de desprendimento da alma e entram em um processo de desapego, que fortalece o amor que liberta, porque não queremos nenhum dos nossos em sofrimento. No entanto, quando alguém te é tirado pelas mãos de outro, o ciclo da vida é interrompido. Não há o desenvolvimento, a mudança de realidade em processamento. Ao contrário, é uma interrupção de algo que ainda estava no meio. É um crime contra a natureza das coisas que não se explica ou se expressa. Não é possível de se fazer compreender. E é cruel quando tentam minimizar ou cobrar de quem ficou uma resiliência, energia e superação que não virão tão facilmente, em tão poucos dias. Titio e titia não faleceram. Eu não tive uma ou duas perdas. Eles foram mortos. Me tiraram os dois. E, não, eu não tenho raiva de Deus e da vida, mas revolta do mundo. Revolta de quem não consegue se colocar no lugar do outro. Revolta de quem minimiza, despreza, ignora ou não dá a devida atenção. Revolta por eles serem irrelevantes para a sociedade, para quem não teve contato com eles. Revolta de quem vem me falar da Bíblia, da justiça, da espiritualidade, porque eu não preciso que me reafirmem o que já sei. Ninguém vai viver ou já vive o que estou vivendo, nem meus parentes, porque o que cada um vivenciou com eles não é o que eu vivenciei. E muitos vão continuar, daqui a umas semanas, a vida sem sentir a mínima falta, como eu vou sentir, porque o telefone já se calou. As portas da casa de vovó Zezinha já se fecharam para mim. As costas da parenta que chora de arrependimento pela amargura de ter desvalorizado quem eu valorizei em vida já se viraram para mim. Titio e titia eram partes fundamentais de minha vida, e não há como substituí-los, porque as pessoas não são substituíveis. São únicas. Meus outros tios não são eles, nem nunca vão ser. Cada um ocupa um espaço único em minha vida. E, dia após dia, fico mais só neste mundão que Deus deu, no auge de minha juventude, que tanto precisava dos meus. Os presentes se vão, um após o outro, e os ausentes vão ficando, na presença da família que escolheram ter, e não na minha.

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